Exposição
SIRI . Em Escalas Variáveis

Instrumentos, formas, escalas, esculturas, escutas variáveis, palavras

Para Walter Smetak, executar música é uma forma de loucura.[1]

Siri, apelido da época do colégio, músico que sempre estudou música, vive a música desde sempre. Trabalhou com música desde quando, ainda criança, tocava e tirava sons de latas. Qualquer uma que caísse em suas mãos se transformava em algo possível de extrair som.

A sua inteligência de inventar paisagens sonoras vem daí, dessa ludicidade de criança em criar com tudo que lhe despertasse a curiosidade provocada por qualquer som ou ritmo: a pronúncia das palavras, os sons emitidos pelos homens, pelos animais e dos elementos naturais do mundo, como a água e o vento no farfalhar das folhas das árvores e do mato.

A música virou o seu brinquedo de fazer a arte dos sons. Sons que podem vir de um pote vertendo água.

Na combinação desse mesmo som, se produz uma música já orquestrada e harmoniosa dada pela natureza das coisas como luzes, baldes, molas, esmerilhadeira, martelos, marretas, entre outros instrumentos. Nos faz lembrar alguma espécie de instrumento indiano, com uma sonoridade profunda, que penetra o nosso corpo, nossas entranhas, como o som do shamisem, do dokoto, do sime-kaido, do shakunachi, do san-no-tizumi, da sitara, da tambura, da tabla, da mrigadan, da caixa shruti (instrumento indiano do vento), da mbela, do balafon, do sekere, do chemtengure, até do fole, do agogô, do atabaque, do afoxé, do berimbau, do pandeiro, do reco-reco, do ganzá, do xereré, do cavaquinho, da cuíca, da sanfona, do piano…

Nomes estranhos para sons mais estranhos ainda, que poderiam servir para nomear seus trabalhos, esculturas igualmente inusitadas.

Instrumentos e sons que levam o corpo a um outro plano, além do físico, capaz de ajustar as sensações sensoriais.

Durante um concerto em Tiradentes, Minas Gerais, me deixei vagar no pensamento dias depois de um encontro com Siri em sua casa, do qual saí feliz, cheio de música, de instrumentos musicais, de formas, de escalas, de esculturas derivadas desses instrumentos que estão acumulados pelos cantos da casa, variáveis da família. Os olhos das crianças, a comida que foi servida. Os sentidos, os sentimentos, a sensibilidade e o sensorial; foi quando escutei uma palavra bonita duas vezes pronunciada com a sonoridade doce da fala que só as crianças têm: “papai”. A ouvi dita com doçura para os meus ouvidos. Fiquei embebido pela cena familiar. Mulher, crianças e marido, juntos naquele estúdio musical.

O artista, que vive no Rio de Janeiro e agora expõe pela segunda vez em São Paulo, na Galeria Mezanino, me pediu que escrevesse um pequeno texto a respeito de minha percepção sobre o seu trabalho. Escrevo antes sobre o nosso contato naquele final de tarde em Santa Teresa.

Elaborei o texto ouvindo música dentro da Igreja do Rosário, a dos negros, em Tiradentes. Tocava Ravel, seguido de Prokofiev, Couperin e César Frank, quando me veio à mente a conversa que tivemos, quando me mostrou a sua paixão pela música, as formas dos instrumentos musicais e sua forma de criar. Não há teto para suas experimentações musicais e plásticas.

Siri não encontrou o seu lugar na música contemporânea, sequer na experimental: na verdade o teto é baixo para ele, pois se propôs a ir além dos limites da compreensão da chamada harmonia “tradicional” e da música “convencional”.

Se não encontrou seu lugar nesse segmento, seu abrigo se deu nas artes visuais com a liberdade de trabalhar as texturas musicais, a forma musical, a abstração e a “surrealidade” produzida pelos sons e ruídos combinados. Como se os instrumentos renascessem de suas mortes prematuras ao deixarem de ser tocados, desmontados e transformados. Daí viram outra coisa.

Os primeiros trabalhos eram performances musicais, depois instalações e ambientes sonoros. Vieram as peças escultóricas com som, depois foi a vez dos beijos, sem som. Peças coladas feitas de instrumentos novos, velhos ou em desuso, que ganham sobrevida. Foram apresentadas em 2015, na mesma galeria Mezanino. O entrelaçamento dessas formas dos instrumentos de sopro faz lembrar a peça máxima que influenciaria o concretismo brasileiro, a Unidade Tripartida, de autoria de Max Bill, que participou da Bienal de 1951 e recebeu o primeiro prêmio por essa escultura seminal para a arte brasileira. Lembra a fita de Moebius. Lembra também essas esculturas de Siri.

Agora as esculturas são feitas de “pedaços” de música e são silenciosas. Siri trabalha com partes dos teclados de pianos e com suas cordas. Cria objetos com os fragmentos dos instrumentos musicais como se fossem cocares indígenas.

Siri lhes dá vida longa, proporcionando-lhes sobrevida ao transformá-los em objetos escultóricos, só comparáveis àqueles criados pelo mestre Smetak no ambiente musical de Salvador no período dos anos quarenta, cinquenta e sessenta.

Para o artista suíço, criar, compor e executar música, a linguagem artística mais abstrata de todas, pois não é palpável nem visível, é apenas ouvida e sentida fisicamente nas suas vibrações, seria uma forma de loucura.

Acrescentaria ainda a essa forma de loucura o incontrolável. Tudo aquilo que penetra o corpo humano e emana dele, a música. A mais completa das artes, pois não existe quem não seja tocado pela música. Mesmo não ouvindo, sentimos suas vibrações penetrando nossos corpos. É o que faz a loucura: criarmos os sons e escutá-los.

Ricardo Resende
Curador
Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea

[1] Walter Smetak, músico, pesquisador e professor, nasceu na Suíça em 1913 e viveu no Brasil fugido das guerras desde 1937. Foi professor na Escola de Música da Universidade Federal da Bahia. Morreu em 1984, em Salvador.

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Abertura:
08/out de 2016
Período:
08/out a 05/nov de 2016
Rua Cunha Gago, 208 Pinheiros
05421-000 São Paulo / SP
Aberto de terça a sábado, das 11 às 19h
+55(11)3436.6306
[email protected]
  
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