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dentro / inside

Individual de Jaime Prades





curadoria de Ana Avelar





13 de agosto a 19 de setembro . 2016

MalditosFios - coletiva com 20 fotógrafos - integrante da 6a Mostra SP de Fotografia

Para além do movimento


Na série Dentro, Jaime Prades, por meio do uso de grafismos, produz uma pintura dinâmica ao mesmo tempo silenciosa, que vibra ao olhar de modo sutil e que explicita, aqui e ali, a presença da mão na caligrafia das linhas e na aplicação da tinta. Desse modo, ressoa a afirmação histórica de Paul Klee – leitura permanente de Prades – sobre o movimento ser “a base de toda transformação”.

Entretanto, apesar da aparência homogênea se vista à distância, os patterns de Prades estão longe de uma op art porque, mesmo sendo a presença do movimento evidente, eles não se configuram apenas como um jogo perceptivo, mas, ao gosto de Klee, como um elemento de transformação da subjetividade. Todavia, estes trabalhos não dizem respeito a um discurso místico, como aquele associado ao início da arte abstrata, mas afirmam as “energias lineares” presentes na arte gráfica, citadas pelo artista suíço-alemão.

A noção contemporânea de patterns (que pode ser traduzida por “padrões”), como entendida por Frank Stella e presente largamente em sua pintura, era utilizada pelo artista norte-americano para garantir uma objetividade do gesto e se opor àquilo que acreditava ser um dado nocivo da tradição europeia: a valorização da pintura equilibrada, compositiva e bem-acabada.

Embora as atuais pinturas de Prades possam evocar visualmente as de Stella, devido ao grafismo e à planaridade, da mesma maneira que as de Stella, nos anos 1960, eram associadas àquelas de Vasarely, as questões que as movem são absolutamente distintas. Ao contrário da literalidade dos padrões de Stella e do fascínio de Vasarely pelas possibilidades da percepção visual do movimento, Prades está interessado no transe estabelecido pela repetição relativa, à maneira de um mantra. É uma experiência que busca, por meio da continuidade e de um trabalho atento, demorado e paciente, proporcionar uma entrada para a contemplação e que o faz adotando uma forma curvilínea e sensual.

Aliás, esse grafismo, que é e não é grade, aliado às irregularidades da mão e a uma palheta silenciosa, faz vir à mente, em termos conceituais, a produção de Agnes Martin, pintora canadense radicada nos EUA. Embora as telas de Martin sejam elaboradas com tons lavados, com a presença da grade ou de listras – elas também borram os limites entre desenho e pintura –, o efeito sensível desses trabalhos se assemelha àquele das pinturas atuais de Prades realizadas, aliás, sem projeto, iniciadas pelo risco de carvão diretamente sobre a tela (um risco que “se faz fazendo”, diz Prades).

Nesse sentido, Martin escreveu com propriedade sobre a beleza e a arte. Para ela, muitas das respostas emocionais diante da vida não podem ser expressas por meio de palavras. Seríamos surpreendidos por obras que se relacionassem a respostas não-verbais. Desse modo, ela aconselhava que mantivéssemos nossa mente tão vazia e tranquila quanto seus trabalhos para que reconhecêssemos nossos sentimentos diante deles. Essa é a postura indicada para adentrarmos as pinturas da exposição de Prades – é preciso olhar detidamente e respeitar o tempo da sensibilidade para compreendê-las.

As telas de Prades parecem crescer para além do espaço pictórico num movimento manso, cuja geometria sutil, em alguns trabalhos, sugere uma membrana que respira. Ele persegue essa geometria mole como uma resposta feminina àquela geometria rígida, de arestas, “masculina”. Segue uma direção oposta à razão; tem interesse pela linha contínua que quer libertar a subjetividade e redimir o prazer. A espessura das linhas e sua sinuosidade fazem lembrar as marcas de um arado, o objeto que cava para revolver e assim arejar o solo, permitindo que aquilo que está por baixo, dentro, seja exposto à superfície. Da mesma maneira, volta e meia, esses “sulcos” sugerem trançados, remetendo ao mundo do tecer e do fiar, tradicionalmente, como se sabe, associado ao feminino.

Prades adota sobretudo uma palheta surda e, ainda que se trate de uma pintura que frisa sua superfície, ela é, em realidade, composta por veladuras. Também a aparente exatidão gráfica, num olhar mais atento, revela seus detalhes gestuais.

Como se pode notar, o trabalho do artista é repleto dessas ambiguidades: um mundo gráfico que habita a pintura, uma pintura que não demonstra discutir a pintura, mas que é elaborada como tal contendo várias camadas materiais absolutamente sutis, uma geometria que diz das sensações e não visa explorar a relação entre os elementos formais.

A pintura pulsante de Prades nos seduz fazendo nossos olhos vagarem suavemente pelas suas formas, e, como com o canto das sereias – e seus cabelos serpenteados –, devemos nos permitir sermos seduzidos porque não tememos o fundo do mar ao qual certamente seremos levados. Nas palavras de Klee, “Deixe-se tragar por este mar revigorante, por um largo rio ou por encantadores riachos, tais como o da arte gráfica aforística, pluri-ramificada”.

Ana Avelar

“Dentro” – São corpos, talvez geografias


A exposição “Dentro” de Jaime Prades representa um salto significativo na sua expressão plástica. Vejo fascinado a grande mudança, como se o artista, ao invés de atravessar uma ponte, resolvesse cruzar o rio pulando de uma margem para outra. Não sei o porquê do salto, mas sei que para impulsiona-lo, Jaime Prades valeu-se de suas experiências gráficas, de seus conhecimentos plásticos e de sua memória. Portanto, não observo como descontinuidade ou um desvio de percurso, mas como afirmação da outra margem do rio. “Dentro” representa, sem dúvida, uma nova articulação plástica que se renova e se amplia para novos territórios.

Seu trabalho atual prescinde das alegorias e das narrativas que de certo modo povoaram sua linguagem anterior. Agora o artista volta-se para os elementos gráficos essenciais. A hachura na sua obra atual não estabelece tramas e urdiduras, mas constrói paralelismos e ritmos binários. As linhas formam conjuntos que reverberam e se propagam no espaço dando-lhe vida, volume e dinamismo.

Jaime Prades utiliza-se de tons contidos que dialogam entre si, e estabelecem uma relação ambígua de figura e de fundo (ora é um, ora é outro) para formar um todo, coeso. As linhas/volumes percorrem o espaço e criam coreografias - como cardumes que se movimentam com extraordinária beleza no oceano. “Dentro" são corpos sinuosos que se expandem para fora da tela. Talvez geografias.

Fabio Magalhães

Pintura.

Alteração do estado físico da matéria. Liquefazer a pedra. O mineral transfigura-se. O corpo esvai-se em tinta. O sólido derrete. Dissolve-se em cor. A dureza vira pó, pigmento, No truque químico da pintura.

A montanha e o rio. A caverna. Onde pedra e água misturam-se. Na cola da linguagem. Bidimensão. Ilusão. Artifício. Representação. Espelho. O mineral agarra-se ao suporte, moído, comprimido. Pedra, suco de pedra, suco de cor. Espalha-se. Espelha-se.

Desnaturaliza-se a matéria. Representa-se a natureza. Pedra humana aprisionada no abismo. Grita, sustenta, ilumina.

Dentro.


Jaime Prades